Consciência de Si

14/10/2010

Entrar no bar: o bolso cheio, o coração pulsante, a noite começa, o mundo e suas possibilidades e o resto e tudo mais.

O silêncio no burburinho comove: – me dá uma coxinha dessa. BenzaDeus, fome.

– Traz outra, traz uma “camisinha” também. – Vai outra chefe? – Bota um marlboro lights na conta também.

A gente pensa, fica remoendo, inventando piada, liga o celular pra ouvir música, coloca uma ficha na máquina, lembra daquele dia, lembra daquela, mente pra si mesmo. Maravilha. Ouvir conversa. Morrer depressa.

“Cumpro minha função: preencho a fila dos homens e mulheres endividados. A dupla humilhação: perder meu tempo para pagar minhas contas e seus juros: é crime emprestar sem cobrar juros; três caixas para as quatrocentas pessoas que como eu se amontoam de amarguras, simplesmente porque tem um espírito pouco nobre. Os caixas não diferem de nós: os cachorros de lá, os cachorros daqui – sem pedigree, de preferência doentes. Completamos a mesquinharia dos donos do banco, dos grandes empresários, das grandes personalidades desse país, e de seus filhos, que vivem o sonho mais recalcado daqueles que aguardam o momento de seu calvário mensal. Não temos nem a hombridade de querer morrer –‘ ai’ é tudo que dizemos. Porque gastamos tanto? Nossa culpa, nossa doce culpa. Que delicia se amargurar em poder gastar um dinheiro que não podemos pagar enquanto tem gente morrendo. Tem gente morrendo, como sempre – digo, de fome. Ah! É. O pior é nossa fonte de alegria, como os juros são a única fonte de lucro dos bancos. Se ao menos a possibilidade de trabalhar para cobrir essas dividas houvesse… Azar dos indisciplinados. Consumiu: consumido. Mais um mês que termina antes de começar. Melhor esquecer, esquece. Vai passar. O próximo mês dura os cinco minutos que você leva pra pagar o pouco de dignidade que lhe resta: dignidade é a virtude mais barata do mercado. A tristeza de não comer como podia ou devia é sempre apaziguada pela lembrança do passado – nenhuma alma é mais carregada que a de um ex-rico, Prometeu das memórias. A vida presente: nosso sorriso, nosso porto seguro: não dura um dia e nós morremos. Aceleraram a vida, se é que isso é possível. A cada três dias seus filhos se formam. Por sorte perdemos a esperança, ou que resta da vontade de um eterno futuro, lá pelos vinte e sete, como se perde a esperança aos vinte e sete do segundo tempo. A juventude deixa um gosto amargo de quero mais daquilo que nunca fomos, nem poderíamos ser. A promessa. Nem no sexo, ou no amor presenciamos a certeza de nosso talento: nos agarramos desesperadamente uns aos outros como os náufragos aos pedaços de madeira. Além disso, ficamos contentes de nos arrastar até o ponto de ônibus cada manhã, menos final de semana infelizmente, em direção a uma pudica orgia em movimento, plena de tensões, onde somos chacoalhados como batatas por uma hora e meia: uma aventura; o trabalho, alguém disse, parece um descanso”.

Nenhum comentário senão pior que é verdade.

Venta, aqui tá quente, bom, beber ou não beber a cachaça, – quanto é?, – vai, que horas são, estou feliz?, tenho que ir, estou feliz.

 

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A Justiça inexiste

04/08/2010

"Marca ele porra!"

Segundo as tão sábias quanto modestas, ditas sem pompa, palavras da maquina chamada Lúcio, “não existe justiça no futebol”. Como pode haver um Juiz quando não há justiça? Quanta inocência a nossa: um juiz julga, mas não há justiça. Uma bela afirmação, pois existe tanta justiça no futebol quanto no mundo (porém muito mais juízes): um jogo de futebol é a forma mais simples e direta de demonstrar isto. Sem dúvida existem leis, as regras, punições, mas tudo se decide no embate de forças.

Nenhum esporte representa tão bem o entendimento do que são forças quanto o futebol.  O time ou o jogador são forças e conjuntos de forças, coordenados, descoordenados ou mesmo livres e fundidas,  que não tem nada a ver com os indivíduos, ou o trabalho coletivo, ou os interesses envolvidos. Tudo se resume a superioridade e inferioridade da relação de forças, as habilidades dos mais diversos graus de organização mesclada à sorte dentro e fora de campo, ou seja, o que se conseguir fazer, o que quer que aconteça. Essa superioridade é sem dúvida ambígua: ora os resultados, ora os desempenhos, e todas as combinações possíveis destes conjuntos. Superioridade ou inferioridade, entretanto sem nenhum critério de mérito exterior ao que pode acontecer: as más fases, os milagres, os períodos mornos, os jogos históricos, os gols de placa e mesmo os erros e as armações para manipular os resultados, tudo entra e pode entrar para marcar essa superioridade. Uma vez entrando, pouco importa de onde veio. O próprio técnico é a rubrica da concatenação (ou dispersão) das forças.

O lado da justiça, sempre cega, neutra, talvez pudesse ser achado na única neutralidade do futebol. Mesmo o arbitro toma partido, o das regras. As regras contra e a favor dos times, os erros contra as regras, os times opostos, os interesses por trás do jogo sendo defendidos. E o lado da bola? Sim, podemos supor o lado da bola, ela que mobiliza tudo e todos, única causa (sem ela as regras perdem o sentido), lugar de onde poderíamos nos fiar na busca por razões que orientem a visão da justiça em tudo o que pode acontecer num jogo.

Sua essência é ser o mais fugidia possível, ser uma esfera, figura que tem a menor superfície de contato com o solo, a menos estável em sua estabilidade. Sua instabilidade é o fundamento do desejo. Vê que o futebol é inteiramente devotado a fêmea, o Neutro (e não um pólo), aquela que não pode tomar partido porque sempre toma um partido qualquer. Se existem faltas, se a força física é exigida com sua concomitante violência, é por um desvio do cuidado com a fêmea, desejo homossexual, desejo do Mesmo que aparece na relação mais profunda com o Outro. A diferença e beleza do futebol, bem como o que faz dele também o mais machista dos esportes, é que o pensamento, digno somente de um Homem hoje impossível, deve ser efetuado com os pés. Pensa-se com os pés e as pernas em primeiro lugar, sendo o restante do organismo uma extensão do cérebro dentro da chuteira.

A potencia feminina liberada, ao menos tal como idealizada no futebol, é pura Beleza. Beleza da liberdade alcançada pelo domínio – mais um paradoxo. Como se toda a contorção realizada, todos os desdobramentos e estiramentos para prender, desacelerar, manter a bola na marca invisível de nosso domínio servissem a soberania de sua beleza unicamente possível livre. Se me repito, é porque falho em dizer, porque é difícil dizer, porque não sei como dizer, ou porque dizer está no limite do dizível: o que se vê quando um jogador, dominando tão bem a bola, lhe dá uma vida que parece independer dele?

No seio desse embate em que a mulher é mantida em sua máxima liberdade pelos pretendentes, o ataque é subvertido: deixa de ser a quantidade e o esforço, a extensão (prosa), passa a ser qualidade e jeito, precisão (poesia): o ataque é uma fuga para dentro do campo inimigo, um suicídio caso se perca a invulnerabilidade proporcionada pelo domínio da bola, submissão ao charme fatal feminino e confiança naquilo de mais fulgaz, covardia para vencer, coragem para fugir.

Os goleiros e o gol oposto formam uma só perversão necessária porem extremamente limitada, perversão no último instante, mesclada ao pudor, que mostra bem o verdadeiro desejo por traz da conquista almejada: o domínio exercido. No ultimo momento, onde todos pretendentes foram superados, é preciso, ainda submetido à exigência de pensar com os pés, enfrentar alguém que não a respeita, que rompe com as leis, um pai, um demônio, um simulacro como provação final.

E então, quando nos achávamos esposando o desejo, o momento de encontro e de transformação, nos colocar a altura de uma mulher, o momento em câmera lenta antes mesmo da existência de tal câmera, em que a bola, por nossa persistência e fidelidade ao desejo, encontra-se irrestritamente livre inclusive de nós que agora somos outros, tal momento nos é inteiramente retirado com a rede, a própria castração, não do homem, mas da beleza feminina. A liberdade é convertida em número, nos assegurando que esse ainda é o mesmo mundo de antes, o mundo dos homens. Frustração comemorada, que assegura a injustiça, pois o carinho (tal qualquer carinho, sempre pode ser bastante violento) que poderia ser utilizado como critério de justiça, vitoria ao libertar pelo domínio da bola, se torna impossível, e de agora em diante são as liberdades parciais, sempre castradas, que poderão medir os pretendentes. As razões de superioridade se tornam os acasos da busca desenfreada pelos encontros furtivos. O gozo toma conta ou substitui o prazer em possuir. O desejo se esvai, reconduzido tristemente ao meio do campo, para recomeçar, sustentando uma alegriazinha.

O jogo sem gols e sem goleiros, de vitoria moral, justo com a bola: opus magnum do futebol. (O jogo de terra batida, pés descalços, bola de meia, que constitui a maioria absoluta dos eventos que podemos chamar futebol, marcando ao mesmo tempo o que tem de mais primitivo e mais essencial nele?)

No entanto, é essa busca pela prisão que invoca as jogadas mais belas. Se o resultado é quase fúnebre o processo pelo qual se chega a ele ofusca por seu brilho, a mais alta potencia do homem, tanto em conjunto quanto individualmente, aquisição da divindade própria ao homem, homem que não é nada senão sua potencia, conjunto de possibilidades e impossibilidades. Tanto quanto o embate de forças provoca, a limitação do prazer invoca.

Por isso os mais belos jogos parecem ser aqueles em que o gol não é um objetivo, ele simplesmente acontece. Apostaria que cada um que admira de alguma maneira o futebol tem imagens desses jogos bem gravados em sua memória, e dentro de um baú empoeirado, guardamos a emoção profunda de ver um jogo onde os gols parecem tão fáceis (ou tão difíceis sem no entanto parecerem impossível – tão próximos em suas distancias…), e são tão incríveis que o deleite nos confunde: desconhecemos o time para o qual torcíamos, o time que enfrentávamos. Sejam decepções ou vitorias, são emoções eternas porque inéditas.

Falei aqui menos das disputas entre torcidas, tão facilmente compreensíveis, quando da admiração pela maluquice de um jogo, falei da sustentação da paixão, do objeto bola, do solo, recoberto pelo lixo do mundo, que é a fonte primaria do amor pelo futebol, o campo de terra, deserto, onde a esfera enigmática sozinha nos espera.

Percebe-se que esse discurso não é o de um profundo conhecedor do esporte, nem mesmo, quem sabe, aquele de uma audiência vacilante. Entretanto, dissemos o que queríamos e gostaríamos de ser ouvidos, por que afinal, futebol não é, ainda, um assunto meramente técnico, que exigiria uma assistência especializada. Falar sobre um assunto que não entendemos, ou o entendemos como podemos é um risco e uma graça, porque somos guiados apenas pelos nossos sentimentos e nossa vontade de pensar, sem os meios para tal, seriamente sobre ele, para aqueles que gostam dele. Quanto ao pseudo rebuscamento do texto, quanta besteira. São palavras, só palavras: farão parte, quem sabe?, mais amenas, menos afetadas, de um futuro “discurso eloquente” a ser escrito.

P.S.: fui informado que Lúcio crê na justiça divina. Mas como crer numa Justiça que não temos acesso? Assim eu também creio.

"Vai - Vai - VAi!"

Bobeiras II

04/08/2010

Juro, quem jura não mente, que outro dia sonhei com uma coluna social da filosofia.

Sonhei com essa:

Kant revela paixão por Hume

Ele tira meu sono! – disse ele, categoricamente.

Caso Panco III

04/08/2010

Mistério resolvido: Yone Yonamine é a esposa do querido Franklin.

Um beijo pra família Panco.

O mistério de Yone Yonamine

04/08/2010

Além de:

a) punheteiros (ou colecionadores de carro que frequentam feiras de shopping aos sábados e domingos – que Deus queira tomem um chifre de suas mulheres enquanto trocam um passat 89 por uma brasilia 78) buscando páginas pela palavra-chave “capô de fusca”;

b) esporádicos amigos e conhecidos que de vez em quando lembram, simplesmente por ter esgotado o seu restrito mundo virtual infinito enquanto procrastinavam trabalho;

c) mais raramente, desconhecidos porém “amigos de rede social”  que acessam um link em meu profile  por interesses sexuais frustados em alguns segundos;

d) eu mesmo, que me encaixo em uma ou mais dessas categorias, revezadamente;

outros enigmáticos personagens frequentam meu blog.

Um deles é alguém que procurava por Yone Yonamine, seja lá o Yone Yonamine for.

Como justa recompensa, Yone Yanomine é minha próxima heroína, fazendo par com Anna Antonioni.

Sopa de Letrinhas

20/04/2010

A vênus nossa de cada dia

Aproveitando a idéia de misturar coerentemente textos diferentes, do querido Leonardo Villa-Forte (confira aqui), me inspiro e faço o que, com certo esforço, também podemos chamar de remix literário – menos original que o dele, mais tradicional, afinal, trata-se de uma paródia:

A pior verdade (ou o verdadeiro cotidiano)

Todo dia eu faço tudo sempre igual
Me sacudo às seis horas da manhã
Me sorrio um sorriso pontual
E bocejo com a boca de hortelã

Todo dia me digo pra eu me cuidar
E essas coisas que diz todo qualquer
Finjo que me esperam pro jantar
E bocejo com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois calo a vida pra levar
E penso com a boca de feijão

Seis da tarde como era de se esperar
Eu me pago uma espera no portão
Diz que está muito louca pra brincar
E me deixa com o bolso de paixão

Toda noite me digo pra eu me acalmar
Meia-noite eu sinto aquele horror
Que me aperta pra eu quase sufocar
E me mordo com a boca de pavor

Todo dia eu faço tudo sempre igual
Me sacudo às seis horas da manhã
Me sorrio um sorriso pontual
E bocejo com a boca de hortelã

(Chico Buarque e Edu Arthur Lobo)

(Precisava revisá-lo, eu sei).

Aproveitando o tema, em seqüência, ofereço as gracinhas(?) de um poeta americano:

On a seven-day diary

Oh I got up and went to work
and worked and came back home
and ate and talked and went to sleep.
Then I got up and went to work
and worked and came back home
from work and ate and slept.
Then I got up and went to work
and worked and came back home
and ate and watched a show and slept.
Then I got up and went to work
and worked and came back home
and ate steak and went to sleep.
Then I got up and went to work
and worked and came back home
and ate and fucked and went to sleep.
Then it was Saturday, Saturday, Saturday!
Love must be the reason for the week!
We went shopping! I saw clouds!
The children explained everything!
I could talk about the main thing!
What did I drink on Saturday night
that lost the first, best half of Sunday?
The last half wasn’t worth this “word.”
Then I got up and went to work
and worked and came back home
from work and ate and went to sleep,
refreshed but tired by the weekend.

(Alan Dugan)

Não traduzi porque o inglês é nível Básico2.

Quem te viu, quem te vê

livros pra ler no banheiro

26/12/2009

Morte de Seneca, de Rubens

Promessa de campanha Nº01: vou ter uma estante com livros no banheiro.

Deveria ser uma categoria de organização, nas livrarias, nas bibliotecas, 100.089 F34p, algo assim.

Alguns dos melhores livros desse gênero que já encontrei são “conversas com Kafka” de Janouch;  “Cartas a Lucilio” de Seneca; qualquer um do Vonnegut; Biblia Sagrada; qualquer antologia de poesia; aqueles livrinhos de arte da Phaidon. O “escritos” e “outros escritos” do Lacan são excelentes também.

Afinal, sanitário também é cultura. aquele que não caga que atire a primeira coletanea de textos autobiograficos do bukowski

Desabado

17/11/2009

Momento de desespero, deixo entrever minhas fraquezas, abro os flancos, vontade de escrever, desespero, vontade de não fazer o que faço, de não desperdiçar a vida, de fazer e esperar ser reconhecido pelo que for possível, um pouco de vida, um pouco de ar puro, um pouco de dinheiro, mas muito comparado ao resto e querendo mais, sem roubar, sem matar, vaidade, que distancia de Sêneca, que distancia da linguagem, que pobreza – o dia a dia é o deserto, dia a dia, adiando, deixando, perdendo por preguiça, perdendo por fraqueza, perdendo, insistindo, solidão – ninguém pra ouvir, ninguém pra conversar, insistência em conversar, impotência em conversar, barreira dos olhos, represa dos ouvidos, boca costurada, blábláblá, rixas cotidianas, desistência – só existe o mesquinho, comer podrão, morrer na esquina, feliz, de pau duro de preferência, que parco vocabulário – viagem, alternativa, opção, escolha, indecisão, desgosto, a série – outro lugar, outra pessoa, farto de si mesmo, insistência, sem pensar sem refletir, sorrindo de bobo, oco, homens ocos, quero ver o oco, oco do santo, Santo Antonio pra todos, meu sonho é matar um mártir, sem desespero, bobagem, bobeira, fim do mundo, assuntos, Oh! A existência, bobagem, acordar andar ver tropeçar definhar trepar que mais?, tem mais? – este é o tradicional plágio do grau zero da escrita contemporânea, Aquiles e a tartaruga da ausência de talento, o ideal seria ir mais lento, mais devagar devagarinho, escrevendo por escrever pra postar, que bobagem só tem bobagem – naufrágio, contagio, médico, barco, naufrágio de novo, vamos lá, liberdade abre as asas sobre nós, amarrado, não existe associação livre, sem anarquismos, prometeu, ta acorrentado, corre pra trás, corre pra frente, rio sem gravidade, que terceira margem, ideal, o ideal seria não ler isso, tem coisas melhores, só ler coisas melhores – mais um menos um, governo, dois três quatro, automático robô, sem pensar, pensndo bem, melhor não escrever, não dá pra parar é só ficar digitando, neurose escrita, repetição – samba, negra, mulata, suando, a distorção, radio mec antes de dormir, beijo a todos, cair fora, não da janela, cair fora, drop out, ou levantar qual o contrario de cair? Não sei bem, help i need somebody, vai passando o rio vai passando, o boi pra piranha também, um abraço pro Simão, um abraço pro jabor, e pra todos esperando godod, godei, crescei e multiplicai, olha a queda de novo, dosentmeiqueanisense, nhenhenhe, três mil gatsby, final de semana te amo, cansaço, vendo o corpo se arrebentar, ou melhor se decompor, compor – sem satisfação, me tôo mick, toma assento no lugar errado, deixa eu sentar no seu colo, beber pra variar, praia, estuda corno, estuda lê tudo fala bem, acredite nas ideias, comedia humana, Bouvard sem Pecuchet, Claudinho sem Buchecha, they call it curto circuito oui, sim outras lenguas, lalangue, ou paparole, ou paparazzo, ou papai – beijo pra psicanálise – il y n’a rapport , ta bom ai, ta escrito errado, sentados, aula de matemática professor você pode me explicar, claro, aprendeu, claro, aprendeu, caro demais, me dá um abraço, just wanna make love wit chu, como é que uma coisa assim machuca tanto e toma conta de todo meu ser, comediantes do Brasil uni-vos – glauqueta te devo três mil drunkcast dois mil 6 mil reais na conta, 6 mil devendo – beijo pro itaú, te amo – cinema pelado, pelados em santos, sexo na areia, saudade do Vinicius de Moraes, meu nome era pra ser Vinicius, viva o Zico que ganhou, tinha que ser flamenguista, a rixa, to me lixando pra ela, fluminense, vascaíno – com blusinha e tudo – pode gritar, é gol é gol é gol viva, é muito bom o gol viva o gol viva o goleiro que emoção é a vida é bonita e é bonita, mas você deve, você deve lutar…. meu hino: Você deve notar que não tem mais tutu e dizer que não está preocupado. Você deve lutar pela xepa da feira e dizer que está recompensado. Você deve estampar sempre um ar de alegria e dizer: tudo tem melhorado. Você deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado. Você merece, você merece, Tudo vai bem, tudo legal, Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé Se acabarem com o teu Carnaval? Você deve aprender a baixar a cabeça E dizer sempre: “Muito obrigado” São palavras que ainda te deixam dizer Por ser homem bem disciplinado. Deve pois só fazer pelo bem da Nação Tudo aquilo que for ordenado. Pra ganhar um Fuscão no juízo final E diploma de bem comportado. Você merece, você merece, Tudo vai bem, tudo legal Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé Se acabarem com o teu Carnaval?

 

Elegia

05/08/2009
olha o Manuel no fundo.

olha o Manuel no fundo.

[Parágrafo de um trabalho de sociologia da educação que fiz, junto com um colega:]

(…)

(Fica aqui nossa elegia em prol do Sujinho, que proibido de vender cerveja, foi desinvestido pela maioria dos alunos. Esse bar, que raramente era motivo de confusão, não mais que qualquer outro lugar, reunia o campus possibilitando, além das tradicionais conversas de botequim, conversas sérias, verdadeiras aulas, e trocas, ainda que parciais, entre os diversos cursos, coisa que em nenhum outro lugar do campus isso é mais possível. Que fique claro que os alunos não pararam de tomar cerveja: apenas foram tomar em outro lugar, como boa parte dos jovens adultos brasileiros. Mas perdemos um espaço de trocas inestimável, entre professores, alunos e servidores, um espaço em que o aprendizado deixava de ser puro protocolo e se tornava preocupação).

(…)

[Saindo da suposta seriedade de discurso pronto como a do texto acima (o que não faz dele uma mentira entretanto), mas mantendo a tristeza, acrescento que perder um bar como o Sujinho deixa a vida mais feia; restam apenas as lembranças – quantas lembranças! -, coisa que não enche a barriga…]

Um Discurso Eloquente

20/07/2009
"O que ELES queriam?"

"O que ELES queriam?"

Um cotovelo entrou direto na minha costela, filhadumapulta, no mesmo instante olho pra trás e tudo se passa, as cabeças, os corpos passando, mais rápido que num instante – é uma confusão. Estamos aguardando a Palavra, aquela que inflará a massa, o galpão está cheio, já anoiteceu, a demora – desdas três horas –, me perdi dos meus conhecidos, estou cansado, minhas pernas doendo, meu ouvido doendo – as microfonias –, e ninguém ainda falou nada que prestasse. Pronto, fudeu, a caixa de som arrebentou, principio de tumulto, briga, tira a mão da minha cara, não empurra, não to empurrando, não sou eu, sai porra!

No meio da turba explodem mil discursos, na voz, e não no grito. Não posso ouvir, o dizem ali, vinte metros a frente, mar de gente, penso se não somos desesperados, esperando uma Ordem, desesperados esperançosos esperando a Ordem, num Inferno, uma multidão, mas e agora? Nenhum logos, nada. Esperamos.

De repente, do meu lado, se levanta, com auxilio de dois homens fortes, um homem, de seus 50 anos, ou mais, com uma voz que vai pra FORA, e parece alcançar todos ao seu redor, “me ouçam!”, terno pobre, usado, olhar alucinado, quase em transe, a mão tremendo, um nervosismo amalgamado a excitação, começa: “Fico impressionado com a velocidade dos amores, com a raiva e violência com a qual alguns de nós, jovens e cheio de vida”, aqui ele pausa um pouco pra pegar ar, “se jogam rumo a novas paixões, saltando para outras vidas e morrendo pelo caminho, numa guerra onde o sangue escorre, mas muito mais lágrimas e gritos, e corpos destruídos, pela doença, pelo cansaço, pelo sexo”. Um estranho silêncio paira ao seu redor, que não impede a barulheira refletida no zinco do teto calorento esfriando na noite vinda das milhares de pessoas que se amontoam na reunião.

“Essa rapidez, avidez, ganância” fala isso cuspindo baba em mim, bem rápido, “parece ser de uma alegria indizível, apesar do sofrimento e mágoas, eternas esperas e instantes evanescentes”, aqui me perdi, tentando achar um espaço pra colocar meu pé, “sussurros de gloria, paraísos fugazes, erguidos sobre todo o tempo perdido, apartado daquilo que dura, daquilo que permitiria um homem chegar ao fim da vida tranqüilo”, cada vez mais pessoas se espremem em volta dele e tentam ouvi-lo, “mas já morto há muito, pulsa nas esquinas, na dança, nos corpos em embate – qualquer embate, mas na verdade essas grandes lutas silenciosas travadas durante dias e anos entre duas, ou às vezes muito mais pessoas”, surge um principio de palmas e gritos, esparsos/dispersos/espalhados, pra falar como o velho.

Um cara o ajuda – agora já tem camadas de pessoas em volta dele, parece um formigueiro, ou cupinzeiro. “O que eles esperavam?” Ele gritou isso, no meu ouvido – já estava desistindo do discurso dele. “O que queriam com isso? Podíamos resumir em palavras, mas nunca saberemos. Eles se foram” – o cara que o segurava de repente solta alguém bateu nele, não deu pra ver, estava com o sapato do velho na minha cara, ai! minha coluna foi empurrada, me afundei entre corpos, joelho no chão, calça rasgada, muita gritaria, não tem pra onde ir, abram as portas!, Calma!, calma. A coisa se acalma um pouco: reagrupam-se, alguém consegue o microfone, o microfone foi consertado, Aê! AÊ, palmas, todo mundo feliz, e minha calça rasgada. Do meio da multidão mesmo, nosso herói continua “o que ELES queriam?” gritou de novo e o pessoal gostou, uma alegria corria entre os rostos. “O que QUERIAM com isso? O que restou, o que sabemos, o que fica são os brilhos intensos de luzes distantes, é a memória dos reflexos de sol no metal precioso que eles formaram ainda em vida, e ainda que não fossem perfeitos, tamanha intensidade só pode ser estranhada, e se não sentimos um calafrio ao pensar naquele que andou quilômetros numa chuva num dia qualquer e por um amor banal, quando estava tranqüilo e podia continuar em seu abrigo, e morreu numa manhã de domingo, atropelado, a própria esperança morta, à procura de seu amado perdido, este certamente numa situação parecida, quem sabe?, se não pensamos nisso não entendemos NADA” grito do velho que cuspia agora muito, feio mesmo, e gritos e aplausos da macacada aglomerada, minha morte subjetiva: a partir de agora, eu juro, sou um corpo apenas, pronto pro que der e vier “– ainda que este fosse um dramático qualquer, com seus pedidos inúteis, seus desesperos fingidos e demandas comoventes – como nós mesmos por vezes. E as intensidades, essas enormes diferenciais de potência”, do que ele está falando?, “que se criam entre alguns, que fendem o que se chama de dia-a-dia numa ruptura sem igual, mostrando um outro lado cheio de forças e por vezes maldito, são incríveis, forçando em pequenas partes o mundo mudar um pouco”. Gritaria geral: somos a fera que ele domou, e isso tudo não passa de um circo sem espectadores.

E vem mais, pensei, devido a longa pausa e gritaria de palavras de rodem, vamos quebrar o banco, vamos pra Igreja! Etc, que tinha acabado. “O que impede? O que impede que um homem ultrapasse aquela parede? ‘Nada’ dizem eles, nada, num brado assustador. Nada… é sempre como se eles fossem nada”, nós nunca somos nada, grita alguém e de repente a coisa ecoa, NADA, nada!… “nunca existissem, nunca contassem, morrendo por ai, nas margens, no silencio da casa de sua mãe, com a aids e todas amarguras, sem filhos, sem emprego, sem vida. O que era glória, a própria violência contra a violência maior, a afronta do forte que não pode ganhar, não passa de um móvel antigo, afastado e guardado, cheio de poeira, esperando o fogo e as cinzas, ou sua demolição e o lixo”. Ah! Agora acho que to começando a entender.

“E ainda assim, não ficamos tristes. Uma baforada dessa de ar nos nossos pulmões incessantemente transformados em meros filtros de ar-condicionado nos enche de vida, nos tira o sossego, nos transborda de angustia”. O discurso dele vai como se fosse o mundo, desliza no ar, olhares atentos, ouvidos preparados, massa de carne em prontidão, “Queremos caminhar dias pelo deserto, sem rumo, sem esperar encontrar nada. Porque, afinal, vale mais a pena ‘burn out than fade away’. E os corpos em chamas, e os dramas em tragédias, e as tragédias na velha mesma velha história do mundo, e os filhos e os netos e as baratas e os ratos e tudo mais, como dizem os escritores. Mas nem ao menos notar isso nos ajuda: a ajuda, dizem, não ajuda, e queremos ajudar a todos, mas começando por nós mesmos”. Tá acabando, tenho certeza, eu sinto, sentimos, viramos só isso, os sentimentos de uma força da natureza, prestes a lançar seus instintos sobre a realidade.

“E de repente nos vemos lado a lado com eles, em suas revoluções diárias, e nos sentimos orgulhosos, pois não são intenções ou resultados que nos fazem tremer de medo e nos encher de coragem, mas aquele olhar ardente onde um rio passa arrastando tudo”. O homem esgoelava-se, encharcado de suor, mal parecia sustentar a voz, quase desabando –na verdade parecia ser sustentado por ela. “Eles podem, eles podem muito. E o medo, tão rápido quanto nos excita, nos domina, pois nossa admiração entrega nossa impotência”. Parece que cada homem e mulher na audiência reflete sobre seu olhar vazio e sem cor  como quem olha um abismo – momento de tristeza antes do clímax, sem dúvida. Estão todos prontos. “Mas…Se esses, que são eles, não forem nós, quem seremos?” Tudo fazia sentido então, mesmo sem sentido. Não sabia o que aconteceria, mas devia ter acontecido alguma coisa, não era uma festa, não era uma orgia, não era a revolução, não era Deus e seus enviados, nem mesmo o Apocalipse. Devia acontecer, deve acontecer, acontece. Estávamos prontos.