Entrar no bar: o bolso cheio, o coração pulsante, a noite começa, o mundo e suas possibilidades e o resto e tudo mais.
O silêncio no burburinho comove: – me dá uma coxinha dessa. BenzaDeus, fome.
- Traz outra, traz uma “camisinha” também. – Vai outra chefe? – Bota um marlboro lights na conta também.
A gente pensa, fica remoendo, inventando piada, liga o celular pra ouvir música, coloca uma ficha na máquina, lembra daquele dia, lembra daquela, mente pra si mesmo. Maravilha. Ouvir conversa. Morrer depressa.
“Cumpro minha função: preencho a fila dos homens e mulheres endividados. A dupla humilhação: perder meu tempo para pagar minhas contas e seus juros: é crime emprestar sem cobrar juros; três caixas para as quatrocentas pessoas que como eu se amontoam de amarguras, simplesmente porque tem um espírito pouco nobre. Os caixas não diferem de nós: os cachorros de lá, os cachorros daqui – sem pedigree, de preferência doentes. Completamos a mesquinharia dos donos do banco, dos grandes empresários, das grandes personalidades desse país, e de seus filhos, que vivem o sonho mais recalcado daqueles que aguardam o momento de seu calvário mensal. Não temos nem a hombridade de querer morrer –‘ ai’ é tudo que dizemos. Porque gastamos tanto? Nossa culpa, nossa doce culpa. Que delicia se amargurar em poder gastar um dinheiro que não podemos pagar enquanto tem gente morrendo. Tem gente morrendo, como sempre – digo, de fome. Ah! É. O pior é nossa fonte de alegria, como os juros são a única fonte de lucro dos bancos. Se ao menos a possibilidade de trabalhar para cobrir essas dividas houvesse… Azar dos indisciplinados. Consumiu: consumido. Mais um mês que termina antes de começar. Melhor esquecer, esquece. Vai passar. O próximo mês dura os cinco minutos que você leva pra pagar o pouco de dignidade que lhe resta: dignidade é a virtude mais barata do mercado. A tristeza de não comer como podia ou devia é sempre apaziguada pela lembrança do passado – nenhuma alma é mais carregada que a de um ex-rico, Prometeu das memórias. A vida presente: nosso sorriso, nosso porto seguro: não dura um dia e nós morremos. Aceleraram a vida, se é que isso é possível. A cada três dias seus filhos se formam. Por sorte perdemos a esperança, ou que resta da vontade de um eterno futuro, lá pelos vinte e sete, como se perde a esperança aos vinte e sete do segundo tempo. A juventude deixa um gosto amargo de quero mais daquilo que nunca fomos, nem poderíamos ser. A promessa. Nem no sexo, ou no amor presenciamos a certeza de nosso talento: nos agarramos desesperadamente uns aos outros como os náufragos aos pedaços de madeira. Além disso, ficamos contentes de nos arrastar até o ponto de ônibus cada manhã, menos final de semana infelizmente, em direção a uma pudica orgia em movimento, plena de tensões, onde somos chacoalhados como batatas por uma hora e meia: uma aventura; o trabalho, alguém disse, parece um descanso”.
Nenhum comentário senão pior que é verdade.
Venta, aqui tá quente, bom, beber ou não beber a cachaça, – quanto é?, – vai, que horas são, estou feliz?, tenho que ir, estou feliz.