A Justiça inexiste

"Marca ele porra!"

Segundo as tão sábias quanto modestas, ditas sem pompa, palavras da maquina chamada Lúcio, “não existe justiça no futebol”. Como pode haver um Juiz quando não há justiça? Quanta inocência a nossa: um juiz julga, mas não há justiça. Uma bela afirmação, pois existe tanta justiça no futebol quanto no mundo (porém muito mais juízes): um jogo de futebol é a forma mais simples e direta de demonstrar isto. Sem dúvida existem leis, as regras, punições, mas tudo se decide no embate de forças.

Nenhum esporte representa tão bem o entendimento do que são forças quanto o futebol.  O time ou o jogador são forças e conjuntos de forças, coordenados, descoordenados ou mesmo livres e fundidas,  que não tem nada a ver com os indivíduos, ou o trabalho coletivo, ou os interesses envolvidos. Tudo se resume a superioridade e inferioridade da relação de forças, as habilidades dos mais diversos graus de organização mesclada à sorte dentro e fora de campo, ou seja, o que se conseguir fazer, o que quer que aconteça. Essa superioridade é sem dúvida ambígua: ora os resultados, ora os desempenhos, e todas as combinações possíveis destes conjuntos. Superioridade ou inferioridade, entretanto sem nenhum critério de mérito exterior ao que pode acontecer: as más fases, os milagres, os períodos mornos, os jogos históricos, os gols de placa e mesmo os erros e as armações para manipular os resultados, tudo entra e pode entrar para marcar essa superioridade. Uma vez entrando, pouco importa de onde veio. O próprio técnico é a rubrica da concatenação (ou dispersão) das forças.

O lado da justiça, sempre cega, neutra, talvez pudesse ser achado na única neutralidade do futebol. Mesmo o arbitro toma partido, o das regras. As regras contra e a favor dos times, os erros contra as regras, os times opostos, os interesses por trás do jogo sendo defendidos. E o lado da bola? Sim, podemos supor o lado da bola, ela que mobiliza tudo e todos, única causa (sem ela as regras perdem o sentido), lugar de onde poderíamos nos fiar na busca por razões que orientem a visão da justiça em tudo o que pode acontecer num jogo.

Sua essência é ser o mais fugidia possível, ser uma esfera, figura que tem a menor superfície de contato com o solo, a menos estável em sua estabilidade. Sua instabilidade é o fundamento do desejo. Vê que o futebol é inteiramente devotado a fêmea, o Neutro (e não um pólo), aquela que não pode tomar partido porque sempre toma um partido qualquer. Se existem faltas, se a força física é exigida com sua concomitante violência, é por um desvio do cuidado com a fêmea, desejo homossexual, desejo do Mesmo que aparece na relação mais profunda com o Outro. A diferença e beleza do futebol, bem como o que faz dele também o mais machista dos esportes, é que o pensamento, digno somente de um Homem hoje impossível, deve ser efetuado com os pés. Pensa-se com os pés e as pernas em primeiro lugar, sendo o restante do organismo uma extensão do cérebro dentro da chuteira.

A potencia feminina liberada, ao menos tal como idealizada no futebol, é pura Beleza. Beleza da liberdade alcançada pelo domínio – mais um paradoxo. Como se toda a contorção realizada, todos os desdobramentos e estiramentos para prender, desacelerar, manter a bola na marca invisível de nosso domínio servissem a soberania de sua beleza unicamente possível livre. Se me repito, é porque falho em dizer, porque é difícil dizer, porque não sei como dizer, ou porque dizer está no limite do dizível: o que se vê quando um jogador, dominando tão bem a bola, lhe dá uma vida que parece independer dele?

No seio desse embate em que a mulher é mantida em sua máxima liberdade pelos pretendentes, o ataque é subvertido: deixa de ser a quantidade e o esforço, a extensão (prosa), passa a ser qualidade e jeito, precisão (poesia): o ataque é uma fuga para dentro do campo inimigo, um suicídio caso se perca a invulnerabilidade proporcionada pelo domínio da bola, submissão ao charme fatal feminino e confiança naquilo de mais fulgaz, covardia para vencer, coragem para fugir.

Os goleiros e o gol oposto formam uma só perversão necessária porem extremamente limitada, perversão no último instante, mesclada ao pudor, que mostra bem o verdadeiro desejo por traz da conquista almejada: o domínio exercido. No ultimo momento, onde todos pretendentes foram superados, é preciso, ainda submetido à exigência de pensar com os pés, enfrentar alguém que não a respeita, que rompe com as leis, um pai, um demônio, um simulacro como provação final.

E então, quando nos achávamos esposando o desejo, o momento de encontro e de transformação, nos colocar a altura de uma mulher, o momento em câmera lenta antes mesmo da existência de tal câmera, em que a bola, por nossa persistência e fidelidade ao desejo, encontra-se irrestritamente livre inclusive de nós que agora somos outros, tal momento nos é inteiramente retirado com a rede, a própria castração, não do homem, mas da beleza feminina. A liberdade é convertida em número, nos assegurando que esse ainda é o mesmo mundo de antes, o mundo dos homens. Frustração comemorada, que assegura a injustiça, pois o carinho (tal qualquer carinho, sempre pode ser bastante violento) que poderia ser utilizado como critério de justiça, vitoria ao libertar pelo domínio da bola, se torna impossível, e de agora em diante são as liberdades parciais, sempre castradas, que poderão medir os pretendentes. As razões de superioridade se tornam os acasos da busca desenfreada pelos encontros furtivos. O gozo toma conta ou substitui o prazer em possuir. O desejo se esvai, reconduzido tristemente ao meio do campo, para recomeçar, sustentando uma alegriazinha.

O jogo sem gols e sem goleiros, de vitoria moral, justo com a bola: opus magnum do futebol. (O jogo de terra batida, pés descalços, bola de meia, que constitui a maioria absoluta dos eventos que podemos chamar futebol, marcando ao mesmo tempo o que tem de mais primitivo e mais essencial nele?)

No entanto, é essa busca pela prisão que invoca as jogadas mais belas. Se o resultado é quase fúnebre o processo pelo qual se chega a ele ofusca por seu brilho, a mais alta potencia do homem, tanto em conjunto quanto individualmente, aquisição da divindade própria ao homem, homem que não é nada senão sua potencia, conjunto de possibilidades e impossibilidades. Tanto quanto o embate de forças provoca, a limitação do prazer invoca.

Por isso os mais belos jogos parecem ser aqueles em que o gol não é um objetivo, ele simplesmente acontece. Apostaria que cada um que admira de alguma maneira o futebol tem imagens desses jogos bem gravados em sua memória, e dentro de um baú empoeirado, guardamos a emoção profunda de ver um jogo onde os gols parecem tão fáceis (ou tão difíceis sem no entanto parecerem impossível – tão próximos em suas distancias…), e são tão incríveis que o deleite nos confunde: desconhecemos o time para o qual torcíamos, o time que enfrentávamos. Sejam decepções ou vitorias, são emoções eternas porque inéditas.

Falei aqui menos das disputas entre torcidas, tão facilmente compreensíveis, quando da admiração pela maluquice de um jogo, falei da sustentação da paixão, do objeto bola, do solo, recoberto pelo lixo do mundo, que é a fonte primaria do amor pelo futebol, o campo de terra, deserto, onde a esfera enigmática sozinha nos espera.

Percebe-se que esse discurso não é o de um profundo conhecedor do esporte, nem mesmo, quem sabe, aquele de uma audiência vacilante. Entretanto, dissemos o que queríamos e gostaríamos de ser ouvidos, por que afinal, futebol não é, ainda, um assunto meramente técnico, que exigiria uma assistência especializada. Falar sobre um assunto que não entendemos, ou o entendemos como podemos é um risco e uma graça, porque somos guiados apenas pelos nossos sentimentos e nossa vontade de pensar, sem os meios para tal, seriamente sobre ele, para aqueles que gostam dele. Quanto ao pseudo rebuscamento do texto, quanta besteira. São palavras, só palavras: farão parte, quem sabe?, mais amenas, menos afetadas, de um futuro “discurso eloquente” a ser escrito.

P.S.: fui informado que Lúcio crê na justiça divina. Mas como crer numa Justiça que não temos acesso? Assim eu também creio.

"Vai - Vai - VAi!"

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